Moradores de rua resgatam o próprio destino por meio da arte de transformar bagaço de cana-de-açúcar em luminárias.

Tãnia Zarbietti, paulista, copeira. João do Nascimento, pernambucano, 53 anos. Aristeu Moreira, paranaense, carregador de cargas que já viveu na Bahia. Pelo centro de São Paulo eles caminham para buscar a matéria-prima para o trabalho que realizam hoje. As ruas os três conhecem bem porque já viveram nelas. É dia de feira no bairro do Canindé e nas barracas de Caldo de Cana está o bagaço, sobra do caldo apreciado por muita gente.

Alguns feirantes evitam que o bagaço vá para os aterros sanitários por entregar o resíduo para os integrantes da Oficina Escola Arte e Luz da Rua.

Na antiga casa perto da Estação da Luz que o bagaço da cana é transformado. Os vinte participantes da Oficina Escola desfiam,cozen e desfiam o bagaço.

Aos 60 anos, o seu Valdemir da Silva descobriu que aqui também se produz outro tipo de riqueza.
Valdemir José da Silva/artesão –

“É a educação. É ensinar as pessoas a viver com amor, um com outro, tratar bem, não mentir, não roubar, não destruir, não pensar em coisas que não devem”.

O pernambucano Severino da Silva, ex metalúrgico, desempregado que foi parar na rua e que já viu tanto desperdício de vários tipos de sobras que até dor no coração sentia, conta que está aliviado.
Severino da Silva – artesão:

” É um retorno ao mercado de trabalho. Isso aqui traz mais conforto, mais segurança, um objetivo mais seguro para ganhar alguma coisa para viver, para se manter, para ficar livre de estar na rua perambulando”.

Carmem da Jesus/artesã :

” Eu esqueço das coisas ruins lá de fora, não fico pensando me coisas ruins, fico se transformando trabalhando aqui. Então eu gosto”.

O trabalho, que já soma oito anos, é coordenado pela alemã Hedwig Knist, conhecida como Edwiges, agente da Pastoral do Povo da Rua, ligada à Igreja Católica.

Hedwig Knist/coordenadora do trabalho :

” A gente percebe dois aspectos. Um é o de reaproveitar, dar uma nova forma ao que se tornaria lixo. E a gente trabalha com moradores de rua, que se você for fazer uma paralela, é o que sobrou da sociedade. Já foi espremido, deu o que tinha que dar, tá pronto para jogar fora. E aí a gente percebe que não é bem assim. As pessoas, tanto quanto o bagaço da cana, podem ser recicladas, ganhar uma nova forma, um novo valor, um projeto de vida”.

O miolo do bagaço, tratado e colorido, fixado em estruturas de arame resulta nestas luminárias, vendidas principalmente em feiras de artesanato. Quatrocentas peças são produzidas por mês. Os artesãos recebem ajuda de custo de 5 reais a cada dia trabalhado. Quase todos são beneficiários de parcerias com os governos municipal e estadual que rendem cerca de um salário mínimo por mês.

Autor:
Editora-Chefe: Vera Diegoli. Reportagem: Cláudia Tavares. Pauta. Marici Arruda. Produtor : Maurício Lima. Supervisor Geral: Washington Novaes.