Arte e Luz da Rua ilumina casas e vidas

Luminárias são feitas a partir do bagaço da cana

“Bagaço de cana cozido e aplicado a uma estrutura de arame, transforma não só os materiais como também a vida de um grupo de moradores de rua de São Paulo, na oficina-escola Arte e Luz da Rua”, este é o lema da associação Arte e Luz da Rua, localizada numa antiga casa na região da Luz, no Centro de São Paulo.

Nela, há a produção de luminárias a partir do bagaço da cana, material que não enferruja nem danifica ou desbota, e também possui grande qualidade e resistência. Elas são vendidas na loja-escola da Roda da Cidadania e em feiras independentes espalhadas pela cidade, como a do Center 3, na Avenida Paulista (ver endereço abaixo).

A Arte e Luz da Rua é uma oficina-escola, um lugar, como o próprio nome já diz, para se aprender a fazer as luminárias de uma ponta a outra, ou seja, da coleta dos bagaços de cana em feiras livres à venda das peças prontas. “Aqui nós fornecemos a formação humana para o trabalho”, diz o orientador educacional da Arte e Luz da Rua, Edson Profeta. Os aprendizes também recebem uma bolsa-auxílio, café da manhã, almoço, curso de caligrafia e gravuras e ainda podem usufruir de biblioteca com livros e jornais.

A Arte e Luz da Rua surgiu quando um grupo de pessoas em situação de rua que freqüentava a Casa de Oração resolveu confeccionar luminárias com papel machê e também experimentou fibra de banana e coco, e com o tempo estabilizaram a produção com o bagaço da cana.

Suporte

A Casa de Oração, apoiada pela Pastoral do Povo da Rua, é um espaço onde diversas entidades da região da Luz se reúnem para realizar reuniões de seus grupos de apoio, encontros religiosos e oficinas, sendo que a limpeza e refeições são feitas pelos próprios alunos do Arte e Luz da Rua, em escala de trabalho. O local foi doado pelo cardeal-arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evatisto Arns.

O bagaço da cana é coletado em feiras livres

A maioria das pessoas atendidas ali saiu de albergues ou moradias sociais, como Tânia de Fátima Zarbietti, que com a falta de dinheiro, a morte dos pais, o desentendimento com a família e uma gravidez inesperada, se viu obrigada a deixar sua moradia em Suzano.

Sem ter para onde ir, Tânia tentou primeiro morar num lugar provisório, mas não deu certo. O único lugar onde poderia ficar era o albergue Portal do Futuro, mas também aí deu tudo errado. E ela retornou para Suzano. Atualmente está no abrigo para mulheres Maria Maria, onde mora com a filha de 11 anos, que estuda em duas escolas. “Não posso ficar com a menina, então ela estuda em duas escolas para eu poder trabalhar”, diz Fátima, que conheceu a oficina-escola através da Casa de Oração, onde é missionária há dois anos. “Eu estava com a auto-estima muito baixa antes de vir para cá. Agora sou feliz, estou num lugar que me dá valor”, disse ela muito emocionada. Hoje, Fátima é responsável pela parte elétrica das luminárias.

Sair sem rumo de sua cidade aconteceu também com Maria Aparecida Silva, que veio de Montes Claros, Minas Gerais, para encontrar com uma prima. Esta, porém, nunca apareceu na rodoviária para buscá-la. “Eu passei a noite na praça até que apareceram uns PMs e me levaram para um abrigo”, ela lembra. Assim como Fátima, Maria também chegou ao Arte e Luz da Rua pela Casa de Oração. Ela atingiu sua independência com seus trabalhos, mora sozinha e recebe o bolsa-aluguel do Governo Municipal. “Tem que ter amor e carinho e mostrar para o cliente o que sabemos fazer”, diz.

Como é feito

O resto da cana é coletado em feiras livres e levado para a Arte e Luz da Rua, onde é tirado o miolo do material. A cana é cozinhada em três latas de soda e lavada em seguida para retirar o líquido.

Após isso, bate-se no liquidificador e a massa obtida é passada para as formas com tintas ou simplesmente permanece na cor natural. Feito isso, a massa é levada ao sol para secar, resultando numa lâmina de textura resistente que irá revestir a estrutura de arame das luminárias. O fio e a lâmpada são instalados por último. Pode se confeccionar também porta-retratos, painéis e caixas de presente com essa lâmina.

Artigo Mari Viana